Dando um espaço homem para descobrir as coisas

Senta que la vem história

2020.09.04 18:33 DanteStonecross Senta que la vem história

Eu to a algum tempo lendo e comentando coisas nesse /, e eu sempre quis dizer varias coisas aqui, porque de algum jeito eu me sinto confortável de ver essas coisas e todos vocês, mesmo discordando com algumas pessoas aqui e ali ta tudo bem, discordar é normal, faz a gente mais humano.
Mas eu queria muito contar uma história aqui hoje, é uma jornada importante pra mim, e eu espero que vocês gostem de me ver aprendendo uma coisa muito complicada. Nessa história, todos os nomes serão fictícios, e será um resumo muito resumido, então a grande maioria dos fatos não está aqui, mas o que isso tudo me ensinou, você vai poder ver com certeza.
Eu sempre fui um Romântico, e quando eu digo Romântico, eu falo da escola literária, eu não uso aquele português difícil, mas eu enxergo o mundo de uma maneira similar, eu vivo os momentos com as pessoas com intensidade, com muito sentimento, e os momentos seguintes a esses vem a melancolia.
A primeira vez que eu me apaixonei quando tinha 11 anos, o mundo se tornou diferente pra mim, era como se de repente todo o resto fosse preto e branco, e apenas aquela garota fosse colorida(eu tenho essa história contada em um texto, que é o ponto inicial da minha depressão, escrito exatamente como aquela criança enxergava o mundo, se ao final alguém se interessar eu mando sem problemas).
E, perto se fazer 14, em 2013, eu conheci uma garota muito mais do que bonita, ela era simplesmente divina aos meus olhos, ela era tão incrível, ela tinha absolutamente tudo que eu gostava. Eu conheci a Ágata dando aulas de matemática(o que mais um nerd faz?) e algo me chamou muita atenção: mesmo com 13 anos eu já tinha dado muitas aulas pra muitas pessoas e todo mundo tem um limite, todo mundo desiste(pede uma pausa) depois de X questões, mas ela não, mesmo sem entender muitas coisas ela persistia até o fim tentando entender tudo, até o horario dela ir embora ela continuou la, com o caderno e a caneta fazendo de tudo pra conseguir entender.
Bons meses depois Ágata se tornou minha melhor amiga(embora no início ela respondia minhas mensagens a cada 3 semanas, sem exagero!), e mais um tempo depois e muitos conflitos com a família dela, a gente começo a namorar.
Eu ainda não posso explicar o que era a sensação de namorar com ela, ela era literalmente o que todo garoto sempre sonhou: baixinha, cabelo cacheado, um rosto muito agradável, um sorriso lindíssimo, peitos e bunda enormes(ENORMES), cantava feito um anjo, era popular, divertida, extrovertida, dedicada, esforçada... É uma lista de qualidades que, na época, transbordava.
De 2014 até 2019, nós tivemos 3 anos de relacionamento e 5 anos de amizade, e eu aprendi muito mesmo em todos esses anos. O motivo do término do relacionamento(numa versão em resumo do resumo do resumo) foi, principalmente, possessão. Eu tenho um pai que é extremamente possessivo e eu levei 14 anos pra sair das garras deles(ou seja, ainda era recente quando eu conheci ela), e 1 ano depois do namoro ela começou a querer cada vez mais a minha atenção, onde eu não sentia mais liberdade pra fazer coisas que eu queria, porque eu tinha que ficar 3 horas falando no telefone com ela(e eu nem gosto de falar no telefone).
Não me entendam mal, eu não estou dizendo que fui perfeito, que não tive defeitos ou que só eu que estava passando por problemas, acabou porque precisava acabar. Inclusive se você, Ágata, por algum motivo descobriu o reddit e se reconhecer nesse post, saiba que mesmo não mais falando com você e não conseguindo mais olhar na sua cara(história pra outro dia), você pra sempre terá minha gratidão e meu respeito, nós vivemos muitas coisas juntos e, se hoje eu sou um homem, foi você que o moldou, muito obrigado.
Quando isso terminou, eu comecei a conversar mais com uma outra garota que eu conhecia, estudava na mesma escola que a gente, e conforme eu a conheci, ela começou a conquistar cada vez mais espaço no meu coração.
Carol era uma mulher interessante de várias maneiras, ela era extremamente extrovertida, cantava muito bem, tinha muitas histórias pra contar, era uma das pessoas que mais tinham ficado com gente na escola, e principalmente, ela tinha acabado de ganhar uma filinha. O jeito que a Carol olhava pra filha dela me fazia querer estar por perto, não porque ela parecia uma mãe incrível, mas porque havia uma dualidade dentro dela: aquela criança foi concebida de um estupro, onde foi muito difícil aceitar conceber a criança, quando ela nasceu era completamente visível que ela não sabia o que fazer, ela amava mais do que tudo aquela criança, ao mesmo tempo que ela via o homem que fez isso quando olhava pra ela(graças a deus, isso mudou bem rápido).
O tempo passou e eu e Carol começamos a nos dar muito bem, e em meados de 2019 a gente se beijou pela primeira vez, essa foi oficialmente a segunda pessoa que eu beijei na vida e cara, que coisa mais estranha, eu não sabia nem como descrever o que tinha sido aquilo de tão estranho... Até que ela me beijou uma segunda vez, e ai oficialmente, aquele era o melhor beijo do mundo.
Eu e Carol ficamos mais algumas vezes, e a gente se dava muito bem em tudo, até na cama era muuuuito diferente do que era com a minha ex, e a gente fazia tantas coisas juntos, viamos animes, conversavamos sobre varias pessoas, saíamos pra comprar roupas...
Cada dia que passava o meu sentimento só aumentava, e quanto mais ele aumentava, mais coisas que eu achava incríveis aconteciam, como a gente ver as coisas abraçadinhos, ficar de mãos dadas, varias dessas coisas de casal.
O meu erro? Carol desde o inicio falou "Não se apaixona por mim, eu não me apaixono por ninguém". Eu segui essas instruções o quanto foi possível, mas cara, talvez fosse loucura minha, mas parecia muito que ela também estava apaixonada, não com palavras porque toda vez que eu mencionava ela mudava a expressão e o jeito por um tempinho, mas as atitudes dela, os nossos momentos...
Depois de um tempo, no inicio desse ano, eu tentei cortar a Carol da minha vida torcendo pra que resolvesse meu problema, e deu certo por 1 mês até que ela me mandou mensagem perguntando quanto tempo isso levaria. Eu dei o meu melhor e coloquei todos os meus sentimentos em um texto, cada palavra continha tudo que eu sentia por ela, e ela também fez um texto de volta pra mim, e eu pude sentir o que ela sentia também, ela queria ser só minha amiga, e nada mais.
Nós ficamos mais 3 ou 4 meses sem nos falar até que, por intermédio de uma amiga em comum, a gente voltou a se falar e, desde então eu vi Carol mais umas 3 ou 4 vezes, mas é tudo muito estranho, a gente troca mensagens uma vez por semana e olhe la, eu nem acredito que um dia a nossa amizade volte, quanto mais a gente ficar ou coisas do tipo.
Mesmo com tudo isso, ela sempre viveu no meu coração.
Porem aqui vem a lição, meus amigos.
Há semanas atrás, eu consegui contato com uma garota que a gente não se via a muitos, muitos anos. Sabe aquela história de primeiro amor a gente nunca esquece? Esse foi meu segundo, e o que eu verdadeiramente nunca esqueci, eu sempre vou me lembrar do meu primeiro dia de aula numa escola completamente nova, e no fim do dia eu ainda todo perdido uma garota me puxa, me olha nos olhos e a primeira coisa que ela diz pra mim é: "Você namoraria comigo?". A resposta pra essa pergunta era não, obviamente, foi muito aleatório, mas eu estava tão nervoso que saiu "sim", ela deu um sorrisinho e voltou ao que tava fazendo. Desde aquele dia, Livia se aproximou cada vez mais de mim, e ela tentou me conquistar todos os dias, e acreditem em 2012/13 eu não era naada fácil.
E quando eu consegui falar com ela novamente, alguma coisa dentro de mim estalou, a gente voltou a conversar e era como se nada tivesse mudado, a gente conseguia desenvolver do mesmo jeito que a gente sempre fez, nem parecia que tinham 7 anos sem contato. A gente se viu algumas vezes(sim, eu sei que a gente ta de quarentena, todas as medidas de seguranças foram tomadas pra gente conseguir) e, cara, eu tinha me esquecido o que é olhar pra alguém que te olha como se você fosse uma obra prima, aquele olhar de quando éramos crianças não mudou nem um pouquinho, ela ainda olha pra mim como se eu fosse a pessoa mais legal do mundo.
Eu, com todos os meus defeitos, com todas as minha chatisses e meu jeito ""inteligente"" de ser, onde a lista de qualidades é exatamente igual a lista de defeitos, ela me vê como se fosse alguém muito mais do que incrível.
E eu olho pra ela assim também, e quando eu a olho, eu quero que ela sinta a pessoa incrível que eu vejo, uma pessoa que passou por inúmeros problemas pelo mundo afora e ainda passa, alguém que realmente foi a raiz do meu gosto pelas mulheres, que me ensinou que atitude é a melhor caracteristica possível em alguém, e que eu quero alguém com isso na minha vida, alguém que tenha coragem de me puxar pelo braço e dizer que me quer, alguém que queira os meus toques, alguém que querias os meus carinhos, as minhas massagens, os meus abraços, as minhas implicações, assistir animes ou séries comigo, beber comigo, aprender e viver todo tipo de experiências e situações. É isso que eu quero com ela também!
Esse é um pedacinho da minha odisseia, eu pedi a Deus, ao universo, a seja la o que for que estiver ai fora por nós, pra que 2020 seja um ano de apredizados e conquistas, 2020 foi o ano mais difícil da minha vida, onde por conta de um treinamento pra competição, da pandemia(home office) e tambem por causa de ter a Carol na minha cabeça, eu passei pela pior fase da minha vida, mas eu consegui correr atrás de ajuda a tempo(onde eu devo a minha vida a minha hipnoterapeuta, que mulher excepcional) e, no final dessa jornada, eu cresci muito e me tornei bem mais forte.
Muito obrigado, eu deixo aqui os meus agradecimentos a todas essas garotas, que me mostraram quem eu quero junto a mim e quem eu quero ser, a minha mãe que é a melhor mãe do mundo e, mesmo a gente se desentendendo as vezes, eu não resistiria sem ela, a minha hipnoterapeuta que consegue a façanha de me colocar em transe(hipnose ericsoniana é a melhor, sem dúvidas!) e que me ensinou muuuito mais lições do que eu teria aprendido em 20 anos da minha vida.
E principalmente, muito obrigado a mim mesmo, por ter aguentado até aqui, por nunca ter parado de ir pra frente mesmo pensando todos os dias em desistir, em jogar tudo pro ar, pensando até em coisas muuito, mas muuuuito mais escuras nos dias mais dificeis, mesmo assim nós estamos aqui, prontos para a proxima jornada, onde a gente vai sofrer, mas a gente vai aprender algo a respeito disso no final.
Se você chegou até aqui, meu caro amigo, eu só queria te contar a história de como eu descobrir o que, pra mim, é o amor. Amor é o que eu sinto quando olho pra alguém que também me devora com o olhar e as atitudes, amor não é toda a intensidade, todo o fogo, toda a loucura, não! Pode ser um pouco disso, mas principalmente, amor é reciprocidade, é você não ter que se esforçar em mudar 1001 coisas só pra agradar a pessoa, quem você ama e quem te ama de verdade gosta de você por ser quem você é, e é isso que eu quero pra minha vida, amar e ser amado!
Eu não sei se eu e Livia vamos ficar juntos, a gente deve descobrir mais a frente, mas eu sei que eu quero isso, e se o destino(ou o universo, ou deus...) não permitir que a gente fique junto, tudo bem, eu sei agora o que procurar, e que vai existir mais alguém que olhe pra mim do jeito que eu olho pra ela.
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2020.03.31 21:27 zephrot Uma conversa de bar

O bar estava quase vazio nesse dia, quase que só se ouvia o barulho vindo do fluxo espaço-tempo.
Como de costume o velho Geist se encontrava ao fundo dando berros aleatórios sobre cogumelos voadores, guerra estava caído no banheiro de tanto beber. O relógio travou às 3:33 da manhã, e nesse mesmo instante a porta se abre.
- Finalmente a folga - disse o primeiro homem.
- Não comemore tão cedo If - Disse o segundo homem.
- Mal chegamos e já está ranzinza Zeit? - disse o homem chamado If, afinal essa conversa era entre o atual ZeitGeist e seu provável sucessor.
- Não vale a pena se acostumar com algo que acabará em instantes.
- Você alguma vez para para viver do seu jeito? - a primeira rodada de bebidas foi servida.
- Eles lá embaixo à vivem por mim, escolhem o que eu sinto e o que eu faço, sou apenas o reflexo de várias consequências.
- Consequências? Tá se referindo novamente ao Guerra e a Paz?
- Em grande parte sim, eles funcionam como pais, a atual paz chamada atômica funciona como mãe, e o guerra que esta imutável como sempre funciona como pai, e eu sou o filho, o filho que sofre por todas as brigas dos pais, eu sou o reflexo, a representação da consequência , por isso If, é mais complicado eu ter liberdade de escolha, eu vivo da forma que foi escolhida para mim.
- Oh, foi mal cara, acho que tem muito mais peso nesse seu peito etéreo do que eu imaginava, vamos, eu pago a segunda rodada e você conta sua história, ainda será 3:33 por um tempo - a segunda rodada foi servida.
- A partir de onde quer que eu comece?
- Desde sua ascensão, falam que todos antes de você ganharam o posto somente após o anterior morrer, mas seu caso foi diferente.
- Ah, teve uma razão para comigo ter sido diferente, era o ano de 1945 lá embaixo, o caos estava solto, não muito diferente de hoje em dia, a única diferença é que naquela época o caos era externo representado por sociedades em guerra, enquanto hoje em dia ele é interno sendo representado por sociedades cheias de depressão e ansiedade, chegam ao ponto de tirarem suas vidas com um tal de suicídio, bem comum lá embaixo. Enfim, nesse ano de 1945, o velho Geist estava fazendo o possível com a pouca liberdade que tinha, mas então vieram os dois cogumelos de fumaça, tão altos que tocavam o céu, eles chegaram tão repentinamente que o velhote não soube reagir, e até agora ele ainda está enlouquecido com os efeitos dos cogumelos, logo o conselho percebeu que um novo Zeitgeist era necessário, e então eu assumi, desde o período da transição do multipolar para o bipolar, vi o muro se erguer e também o vi cair, toda uma cortina pesada como ferro tombando por todo um continente, deixando até hoje seus danos, nisso o mundo se acalmou, havia uma nova paz e seu nome era Atômica, cada nação com a sua e nenhum quis arriscar compará-las.
- Hum.... Então o peso de tudo diminuiu certo?
- Que piada, a única coisa que mudou foi a forma de expressão, lembra o que falei? O caos ainda existe, mas agora ele age quieto, internamente, fica na cabeça de cada um, toma forma de depressão e assim quebra sociedades de dentro para fora, uma maneira muito mais eficiente diga-se de passagem, mas ainda há um tipo de caos externo, o caos que surge na mente de uma pessoa dando a ela liberdade para ser ou pensar diferente mas ao mesmo tempo também é o mesmo caos que está na mente do outro fazendo com que ele agrida ou segregue aquele que se identifica como diferente, aliás pode me chamar de falsa liberdade.
- Qual o sentido disso? Todo esse caos em forma de discriminação?
- Não faz sentido, nada faz sentido e tudo é permitido, eu fico assim como eles, depressivo.
- porque até você fica assim?
- por que, não importa quem seja, aquele que discrimina é tão triste e vazio quanto o discriminado, porque é no momento da ação, o momento em que os olhos se encontram que acontece a pior parte, os olhos de um dizem “ eu só quero ser aceito “ enquanto os do outro dizem “ eu preciso fazer isso para continuar sendo aceito “ no fim, ambos querem a mesma coisa e nesse olhar, bem no fundo de suas almas, eles se reconhecem, eles se aceitam nem que seja por um breve mas singular momento, e isso me deixa triste, me tira a vontade e me deixa tão insano quanto os cogumelos deixaram o velho, porque é somente por um mínimo momento que há aceitação.
- As crianças se salvam pelo menos?
- Crianças... Termo estranho.
- porque estranho?
- Porque “crianças” estão cada vez mais adultas em uma sociedade cada vez menos humana, e a cada dia que passa dou mais razão ao Peter Pan por nunca querer crescer.
Houve um silêncio no bar, até que a quarta rodada fosse servida, nesse momento o Guerra apareceu do banheiro com a camisa vomitada, andou até a bancada, sentou e desmaiou em cima da travessa de amendoins.
- Como esse cara causou tanto estrago?
- Ele é um bêbado If, são os que mais causam, já viu o que ele fez com a paz?
- A paz? Para mim ela está firme e forte.
- Coitado, a Paz está viciada em tarja preta dizendo que é só assim que ela consegue aguentar o dia a dia, e logo mais, meu caro, ela não vai aguentar nem com isso.
- O que acontece se ela morrer? - estavam pagando a conta.
- Se ela morrer o Guerra ataca, mas não se preocupe If.
- E porque não me preocupar? Eu não vou te suceder?
- Você vai, mas se o Guerra atacar no meu turno a única maneira dele atacar no seu seria entre paus e pedras.
- O que isso significa?
- Torço para não descobrir
A porta se fechou, o relógio bateu 3:34, o tempo voltou
Fim

(Obrigado por ter lido até o fim, demorei mas enfim tomei coragem para postar pelo menos um dos meus contos)
Nathan Vendramini, Zephrot
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2019.09.01 17:37 Capivaras (SCI-FI/FANTASIA) Flammarius

Primeira parte de um plot novo que comecei a escrever recentemente. :-)

COSTA SUDOESTE DA ANTÁRTICA, 12 A 15 DE JANEIRO DE 2022 d.C.
As geleiras começavam a se destacar no horizonte como pequenas manchas acinzentadas entre o véu da noite e a escuridão do oceano. A embarcação, apesar de grande e forte, balançava com os ventos frios que cortariam a pele de qualquer um exposto à superfície sem o corpo completamente coberto e protegido. Lúcia estava em sua cabine sem conseguir pregar os olhos - estariam pisando no Polo Sul na manhã seguinte. As mãos, trêmulas, seguravam um pedaço de papel amassado e manchado.
A carta chegara cinco meses antes, no seu vigésimo quarto aniversário, e o pavor que a afligira à época era o mesmo que a fazia tremer na cabine. A remetente da carta era sua avó e mãe de criação, Elvira, e datava do dia de sua morte há 6 anos.
“Minha amada Lúcia,
Escrevo do seu passado para o seu futuro e espero que acredite nas palavras que se seguem. Busquei por anos o melhor jeito de explicar, mas elas estavam certas, não cabe a mim antecipar o seu destino.
Se nenhuma intercorrência se passou, hoje você faz vinte e quatro anos e está no ápice de sua juventude - lembro-me bem da minha era sem rugas e sem artrite, aproveite enquanto pode! Justamente por isso, é o momento de descobrir o mundo e, com ele, descobrir a si mesma.
O dinheiro que envio junto à carta é apenas para o começo de sua jornada, e ela se inicia no fim do mundo. Conheça Buenos Aires e, se possível, compre as roupas mais quentes que achar por lá - então, siga para o Ushuaia e entre na barca, eles estarão esperando por você.
No centro do Polo Sul, Estação Amundsen-Scott, ao anoitecer do dia 15 de janeiro de 2022, você encontrará as respostas às perguntas que nunca pude te responder. Mande um abraço a seus pais.
Amo você para sempre, meu docinho de coco,
Vovó Elvira.”
Vovó Elvira sempre fora cheia de segredos. Dizia que os pais de Lúcia estavam mortos, mas não dizia jamais como morreram. Após oito anos de tentativas, a menina decidiu entrar em paz com a dúvida eterna. Outro mistério, que sempre provocava risadas na velha, era sua relação com os pais de Lúcia - de quem ela era mãe?
Essas e outras perguntas mais, sempre sem solução, fizeram de Lúcia uma mulher desapegada às suas raízes - sua única família era Elvira e ela não tecia comentários sobre o passado. Dizia sempre que “o que ainda não se aprendeu, se deve de fato ser aprendido, assim será”, o que não fez sentido na cabeça de Lúcia por muitos anos e, sinceramente, ainda não tinha plena noção do que a avó queria dizer. Ainda assim, ali estava ela, motivada pela curiosidade, movida pelo medo - ou seria por puro instinto?
Não percebeu quando adormeceu, mas acordou com os gritos da Capitã Sanders - estavam descendo os botes para chegar à costa. De estrutura metálica, mesmo sob as várias camadas de roupa, o bote congelava as nádegas dos tripulantes. O vento frio batia sobre o óculos de proteção de Lúcia como uma serpente em ataques enfurecidos. O oceano, congelado sob o barco, ia se quebrando conforme este avançava.
Com muito esforço, pegou a câmera de dentro de sua mochila, limpou o gelo das lentes e fotografou a chegada a Marie Byrd Land, a porção de terra da Antártica não reclamada por nenhuma nação - um território quase abandonado. Guardou a câmera na mochila, colocando-a às costas antes de sair e, enfim, pisar em solo mais ou menos firme. Aproximou o punho da boca, após ativar o gravador em seu Apple Watch.
Quinta-feira, treze de janeiro de dois mil e vinte e dois. Devem ser onze horas da
manhã, mas, na realidade, tentar medir as horas aqui é um tanto complicado. A cada passo, um novo meridiano, uma nova hora, e nem pensar em se guiar pelo Sol - tentou olhar para o céu, mas os olhos arderam devido à claridade das nuvens. - Caminharemos mais algumas horas até chegar no helicóptero que nos levará à Estação Amundsen-Scott. O trajeto pela região de Marie Byrd Land é uma operação exploratória das Nações Unidas para reconhecimento e mapeamento da área, considerada um ponto frágil para eventos terroristas. O barulho cortante do vento ensurdece até mesmo as palavras que saem da minha boca, é um silêncio estrondoso. Consigo sentir a tensão ao meu redor, quase como se estivéssemos indo para a guerra. Espero que seja apenas o frio.
A caminhada foi mais extensa do que o planejado, em decorrência de uma nevasca anunciada, o que obrigou a equipe de expedição a tomar um caminho mais longo, por um desfiladeiro - o que deixou Lúcia preocupada com sua claustrofobia. Pararam para comer uma única vez, dando um milagroso porém insuficiente descanso para os músculos dos viajantes. Apenas os geólogos ainda mantinham-se em movimento durante a pausa, fazendo seus diversos testes e traçando seus estranhos mapas.
Estava anoitecendo quando Lúcia sentiu uma corrente gelada diferente percorrer sua espinha, eriçando ainda mais seus pêlos. O ar ficava ainda mais frio e a neblina mais forte, impedindo a visão de qualquer coisa a um palmo de distância dos olhos em questão de minutos.
A voz da Capitã Sanders ecoou distante:
Tateando às cegas, seguindo o som de sua voz, Lúcia chegou à fonte da voz.
Um estrondo ecoou no céu quando as correntes de vento aceleraram ao seu máximo. A nevasca estava ali. O desespero dessa vez não foi só de Lúcia - era geral. A ventania jogava as pessoas contra as paredes de gelo do desfiladeiro, cujas pontas no topo começavam a rachar ao se chocar com o ar corrente. Não tardou, passaram a despencar pedras imensas de gelo sobre a trupe.
Lúcia nunca vira tanto sangue. Nem quando trabalhava na cobertura de homicídios para o Correio Braziliense - e ela fora estagiária na época do Massacre de Planaltina. Faziam dois anos que conseguira o emprego como jornalista da Mundus, revista periódica de Direitos Humanos e Política Internacional, e ficara surpresa com sua indicação para a operação na Antártida - escrever sobre a experiência pré-guerra em um possível palco estratégico de batalha ainda não explorado. Em tese, sua área era apenas a escrita e não a fotografia, mas como só cederam um espaço à imprensa, Lúcia estava incumbida também de registrar as imagens da operação.
Jamais poderia fotografar o horror diante de seus olhos. A natureza rebatia feroz, selvagem, vermelha e branca. Sangue sobre gelo era tudo o que via. A vista não era sequer próxima de nítida, devido à névoa - mas isso era suficiente. Sem perceber, Lúcia desmaiou. Recobrou a consciência já dentro do helicóptero. Além dela, só mais outras duas pessoas da equipe pareciam ter sido resgatadas com vida.
Sem dizer palavra nenhuma, os homens armados que pilotavam o helicóptero pousaram num heliporto ao lado de um pequeno complexo de prédios baixos. A Estação Amundsen-Scott. Eu cheguei, pensou Lúcia. Um homem de cabelos ruivos compridos e de terno as esperava do lado de fora. Cumprimentou-as e engoliu em seco ao apertar as mãos (ou luvas) de Lúcia.
Lúcia estranhou nenhum suporte de saúde na saída do helicóptero. Ainda estava tonta e nauseada e não entendia a frieza ou o destaque dado a ela pelo homem ruivo. Se sentia dopada, ainda em choque. As outras duas pessoas - uma geóloga e um geofísico, casados - pareciam tão atônitas quanto Lúcia.
Não conseguia entender as palavras ditas pelo homem ruivo e só o seguiu, com seus dois companheiros, por dentro das instalações. Adentraram um elevador em algum momento e sua claustrofobia deu indícios de que daria um olá em breve. Desceram durante muito tempo, até chegarem em uma plataforma metálica escura com um grande círculo central em torno do qual diversos cientistas faziam análises dos processos que ocorriam em seu centro - parecia uma espécie de gás no ar, tremendo, mas brilhava como um neon suave sobre uma superfície aquosa. Lúcia pensou em tirar uma fotografia, mas estava muito grogue para conseguir segurar a câmera e tirar uma foto boa. Ouviu o homem ruivo balbuciar algumas palavras, das quais só compreendeu as últimas:
Sentiu-se com vontade de rir. Sua presença ali já não tinha mais sentido algum, não entendia absolutamente nada e, muito menos, podia contribuir em algo. Talvez a Capitã Sanders estivesse certa o tempo todo. Estavam na passarela aproximando-se do meio quando sons de explosão foram ouvidos na superfície. Vai tudo desabar de novo? Por favor, não, pensou Lúcia.
Um silêncio geral se fez na plataforma, ecoando apenas os sons de bombardeios. Em segundos, tudo começou a tremer e os barulhos se intensificaram. Estavam sob ataque. As sirenes vermelhas soaram ensurdecedoras e todos se puseram a sair pelo caminho de emergência - justo na direção da passarela na qual se encontravam Lúcia, os amigos e o homem ruivo.
Ao ver o montante de pessoas correndo em sua direção, sentiu a respiração travar e a pressão cair, quando foi empurrada por algum dos correntes, debruçando-se sobre o apoio da passarela. Encarando o fundo, percebeu que parecia um buraco sem fim, completamente eterno e vazio, exceto pelas luminosidades estranhas também vistas no centro da plataforma. Bastou mais um empurrão para desequilibrar Lúcia e jogá-la em queda livre no buraco eterno.
Seu primeiro ímpeto foi gritar, mas a voz parecia não sair. Caindo de costas, conseguia ver as chamas explodindo nos andares acima. Não sabia dizer se era alucinação ou não, mas as luzes coloridas pareciam se condensar em torno de seu corpo, num brilho rosado. Ainda olhando para cima, a última coisa que viu foi um crescente clarão verde - inicialmente um ponto mínimo no horizonte, como os icebergs quando estavam chegando ao continente, mas que de súbito preencheu absolutamente todo o espaço ao seu redor num impacto tremendo. Tudo ficou preto e Lúcia dormiu o melhor sono de sua vida.
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2019.03.28 09:39 AntonioMachado [2006] Leopoldo Fulgencio - O método analógico em Freud

Artigo: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/estic/v11n21/v11n21a14.pdf
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2019.03.09 17:25 O-Pensador Por que imposto é roubo?

Talvez a frase de efeito mais famosa dentre os libertários é: “Imposto é roubo.” Apesar de ser uma verdade, que implica, em particular, a ilegitimidade do estado — visto que roubo é um crime, independentemente se praticado por cidadãos ou se por governos —, o fato é que vejo poucas pessoas que sabem dar uma justificativa correta a essa afirmação. Isto se deve em parte à fácil intuição gerada por ela, pois qualquer um sabe que, se uma pessoa não pagar impostos e resistir às intimidações do estado, ela será sequestrada pelo governo, como ocorreu com o famoso ativista anti-imposto Irvin Schiff, que em 2015 faleceu na cadeia por defender a ilegalidade do imposto de renda nos EUA [1]. Porém, essa constatação da ameaça implícita por trás dos impostos não é suficiente para determinar que o imposto é de fato um crime, embora seja obviamente uma condição necessária. Sendo mais preciso, poderíamos ter duas, e apenas duas, situações onde o imposto poderia ser visto como como algo legítimo, caso fosse: 1) um pagamento previsto em um contrato implícito, chamado “contrato social”, onde, no passado, as pessoas, legitimamente possuidoras de suas propriedades, abriram mão de certos direitos para um governo ou outra autoridade a fim de obter as vantagens da ordem social; e/ou 2) uma taxa forçada feita pelo estado a fim de pagar suas despesas de manutenção, caso análogo a um condomínio, onde a posse territorial do estado seria legítima. Esses dois casos resumem todos os principais argumentos pró-imposto dos estatistas, de modo que para demonstrar que o imposto está fora da lei, é suficiente refutar ambos os casos, mostrando que o contrato social, caso exista como contrato implícito, não pode ser legalmente executável e que o território do estado não é legitimamente apropriado. Daí seguirá nossa famosa tese que imposto é de fato um assalto a mão armada.
Antes, porém, é importante ressaltar que questões sobre o estado ser necessário (e não é) para prover bens públicos [2] ou de seu surgimento ser ou não inevitável [3] dentro de uma sociedade livre são irrelevantes para determinarmos a justiça do imposto, pois estão em diferentes categorias epistemológicas: “imposto é roubo” é uma afirmação dentro do âmbito da Ética, das questões prescritivas, i.e., que tratam do dever, enquanto que as demais questões relativas ao estado são meramente descritivas. E como David Hume observou, [4] um dever nunca deve seguir de um ser, i.e., é epistemologicamente equivocado derivar verbos no imperativo de outros no indicativo – no nosso caso, derivar “você deve pagar impostos” de “o estado é necessário para manter a ordem” ou “o estado é inevitável”. Nesse artigo, vamos nos focar nas disciplinas da Ética e do Direito.
O Contrato Social é Uma Ficção Supérflua
Geralmente argumenta-se que o estado, tendo ou não posses legítimas, pode cobrar impostos, pois existe algum tipo de consenso implícito em torno desse arranjo social — a legitimidade se origina então da anuência dos cidadãos. A esse corpo de ideias que postulam um contratualismo implícito em sociedade feito para manter a ordem e instaurando, para isso, um regime político específico, se dá o nome geral de teorias do Contrato Social.
Antes de mais nada, é bom deixar claro que o Contrato Social jamais pode ser um contrato executável por lei, ou seja, um acordo cuja quebra pode resultar em retaliação legal. Primeiro porque — como os próprios teóricos contratualistas assumem — ele é implícito, não tendo uma expressão objetiva de consentimento. E, de fato, é deveras óbvio para qualquer um que ninguém foi consultado sobre a aderência ao arranjo político democrático que vivemos hoje. Nunca os estados modernos fizeram consultas entre as populações dominadas para que questionassem suas legitimidades e perguntassem sobre a possibilidade de elas gerirem suas propriedades por si mesmas, sem o estado como decisor último de instâncias. O ônus da prova desse consentimento recai todo sobre os contratualistas, que até agora não forneceram nenhuma evidência nesse sentido. E sequer poderiam. É um fato histórico que em geral os estados modernos surgiram não de um acordo voluntário em sociedade a fim de criar uma administração com a função de centralizar o poder público, mas sim pela conquista militar e ameaça de força física. Isto deveria ser deveras óbvio, pois é completamente irrealista que, dentro de um grupo de pessoas sempre alertas à possibilidade do surgimento de conflitos, alguém proponha, como solução a este problema, que ele próprio se torne o arbitrador supremo e monopolista de todos os casos de conflitos, inclusive daqueles em que ele mesmo esteja envolvido. Seria uma proposta no mínimo risível, por maior que seja a reputação que esse membro destacado tivesse.
Em segundo lugar, mesmo que tenha havido consenso no passado — e não temos registro algum disso, mas ao contrário, como veremos abaixo —, o Contrato Social é uma relação de subordinação individual e portanto precisa ter uma cláusula de rescisão, haja vista que a vontade humana é inalienável. Sob a ausência de tal cláusula, ele se torna um acordo tão absurdo como um contrato de “escravidão voluntária”, não tendo sentido legal algum. Com efeito, um consentimento sem rescisão prevista em contrato é uma mera promessa, de modo que a iniciação de força para fazer cumprir tal contrato tem o mesmo efeito legal de agredir pessoas em virtude de discursos. Vejamos o caso clássico de “contratos de escravidão” em mais detalhes. Suponhamos então que A promete (ou realiza contratos, ou concorda; a terminologia não é importante) em ser escravo de B, sendo assim uma tentativa de consentir agora para forçar ações no futuro. Se A depois muda de ideia e tenta fugir, pode B usar força contra A? Esta é a pergunta crucial. Se a resposta for sim, isso significa que A não tem o direito de se opor e alienou eficazmente os seus direitos. No entanto, isso não poderia acontecer simplesmente porque não há nenhuma razão para que A não possa retirar o seu consentimento. Assim, não é inconsistente para A, mais tarde, se opor ao uso de força. Tudo o que A fez anteriormente foi proferir palavras para B, tais como, “eu concordo em ser seu escravo.” Mas isso não agride B em qualquer sentido subjetivo tanto quanto não há agressão ao proferir o seguinte insulto: “Você é feio”. As palavras por si só não podem agredir, isso é – inclusive – uma das razões as quais justificam o direito à liberdade de expressão. Em poucas palavras, um proprietário de escravos deveria ter o direito de usar a força contra o escravo para que a escravidão seja mantida e que os direitos sejam dessa forma alienados, entretanto o escravo não teria previamente iniciado força contra o proprietário de escravos. Logo, o proprietário de escravos não tem o direito de usar a força contra o escravo e, assim, nenhum direito de fato foi alienado. O mesmo vale para o contrato social, que pode ser pensado como um caso particular do aqui exposto.
Em terceiro e último lugar, se existiu um contrato social para legitimar a espoliação moderna do estado, então ele certamente diz respeito às gerações passadas e não às nossas. E da mesma forma que crimes não podem passar de pais para filhos, visto que a pena é sempre individual, promessas de cumprimento contratual também não. Assim, um consentimento — implícito ou não — no passado não pode ser herdado hoje pelas gerações que não participaram direta ou indiretamente desse processo.
Tendo derrubado as teorias do Contrato Social sob o prisma jurídico, resta dele apenas mera formalidade, um conceito abstrato para ilustrar uma suposta necessidade do estado. Este foi o caso de Thomas Hobbes, que sustentou que, em estado natural, as pessoas iriam reivindicar cada vez mais direitos, ao invés de menos, levando a conflitos incessantes e cada vez maiores. Urge então a necessidade de um arbitrador soberano, acima e exterior à sociedade civil. A ideia jurídica por trás disso é clara: acordos requerem um fiscal externo que os torne vinculantes. O estado não pode portanto seguir daí, pois quem iria tornar esse mesmo acordo vinculante, se não há árbitros fora do estado? De duas, uma: ou será necessária a instauração de outro estado (caindo em regressão infinita) ou o próprio estado hobbesiano está, por si só, em estado de anarquia dentro de si mesmo. Na prática, nos encontramos no segundo caso, onde o estado não está vinculado a nenhum fiscal externo. Não há contratos fora do estado de modo que todos os conflitos envolvendo-o (seja dele com cidadãos privados, seja entre ele e seus parasitas) será sempre resolvido dentro de seus próprios mecanismos jurídicos, com suas próprias autoimpostas regras, i.e, com as restrições que ele mesmo, e apenas ele, se impõe a si. Em relação a si próprio, o estado ainda está no estado natural de anarquia caracterizada pela autofiscalização e pelo autocontrole, da mesma forma que a sociedade em “estado natural”. Só que pior: dado que o homem é como ele é, e dado que o estado é formado por homens, ele tem uma tendência natural a mediar seus conflitos em seu próprio benefício, em detrimento dos cidadãos privados. O totalitarismo é seu destino inevitável.
Outro teórico do Contrato Social foi John Locke, que assim como Hobbes inicia sua teoria focando num estado de natureza [5], que, através do contrato social, vai se tornar o estado civil. Porém, ao contrário de Hobbes, Locke vê a relação da sociedade com o Contrato Social não como uma subordinação, mas sim como um consentimento. E uma vez que o consentimento é dado, o governo, segundo Locke, tem o dever de retribui-lo garantindo a liberdade individual de duas formas básicas: fazendo valer o direito à propriedade para o homem conseguir seu sustento e sua busca à felicidade; e assegurando a estabilidade jurídica para que os homens possam resolver seus conflitos e assim assegurar a paz.
Um importante ponto do contratualismo lockeano é que a delegação de poder ao governante não retira dos indivíduos o direito de removê-la se eles julgarem que o governante traiu a confiança nele depositada:
“Pois todo poder concedido em confiança para se alcançar um determinado fim, estando limitado por este mesmo fim, sempre que este fim é manifestamente negligenciado, ou contrariado, a confiança deve necessariamente ser confiscada (forfeited) e o poder devolvido às mãos daqueles que o concederam, que podem depositá-lo de novo onde quer que julguem ser melhor para sua garantia e segurança.” [6]
Assim, o governante que quebra a confiança nele depositada está, segundo Locke, em estado de guerra com a sociedade, pois agiu de modo contrário ao direito, do mesmo modo que o indivíduo que viola a lei natural.
Apesar do significativo avanço do contratualismo lockeano frente ao de Hobbes no que diz respeito às liberdades individuais, dada sua ênfase na manutenção do direito natural à propriedade [7] e no consenso dos cidadãos, ele peca em ser demasiadamente ingênuo do ponto de vista político. O ponto de Locke a favor de um governo “voluntário” que tem legitimidade enquanto cumprir suas funções delegadas pela sociedade civil pode parecer razoável à primeira vista, mas, afinal, o estado é uma instituição de natureza definitiva, e as ações esperadas disso são determinadas pela sua natureza e não pelos nossos desejos e fantasias. Então, a verdadeira questão é se é realista esperar este tipo de operação automática e imparcial de um monopólio centralizado. E de fato, não é. O poder corrompe, porque atrai o corruptível. E o sistema de incentivos de um monopólio estatal é verdadeiramente perverso. A história está aí para mostrar que, como tendência geral, a liberdade humana é cada vez mais sufocada pela ameaça estatista e pouco ou nada pode-se fazer para deter isso dentro do âmbito político [8].
A experiência histórica da Revolução Americana foi profundamente influenciada por John Locke e ilustra muito bem o caráter utópico das ideias lockeanas de governo limitado e consensual. A famosa frase “Governos são instituídos entre os Homens, derivando seus justos Poderes do Consentimento dos Governados” foi proferida quando os revolucionários norte-americanos justificaram sua secessão do Império Britânico, dando um marco inicial à primeira república fundada por um ideário genuinamente liberal. A constituição americana foi redigida no propósito de limitar as funções do governo para os propósitos lockeanos e assim, em tese, proibia cabalmente o exercício de políticas esquerdistas (bem-estar social) e direitistas (belicismo). E é claro também que o significado geral da constituição não dá margens para dúvidas: o princípio dominante de que tudo que o Governo Federal não está autorizado a fazer está proibido de fazer. A décima emenda, por exemplo, proíbe o Governo Federal de exercer quaisquer poderes não especificamente atribuídos a ele pela constituição. Isso por si só invalidaria o estado de bem-estar social e, de fato, praticamente toda a legislação progressista. Mas quem se importa? Até mesmo o famoso jurista constitucional Robert Bork considerou a Décima Emenda politicamente inexequível.
A constituição americana já pode ser considerada morta desde a Guerra Civil, quando o direito de secessão foi negado aos estados do Sul. Ora, mas isso não era constitucional? Os estados federados não poderiam retirar-se da União? Lincoln, através dos resultados estabelecidos após a Guerra Civil, declarou que a União era “indissolúvel”, a menos que todos os estados federados concordassem em dissolvê-la. É sempre o próprio estado que irá decidir, pela força, o que a constituição “significa” firmemente decidindo a seu próprio favor e aumentando seu próprio poder em prol dos caprichos pessoais da casta política. Isto é verdade a priori, e a história americana apenas ilustrou isso. Assim, as pessoas são obrigadas a obedecer ao governo, mesmo quando os governantes traem seu juramento perante Deus de defender a constituição.
Daí em diante, as portas para o socialismo estavam escancaradas e o New Deal de Roosevelt foi a prova final desse fato. A América olhou calada a mais uma grave usurpação de poder, dessa vez de viés esquerdista, um claro golpe inconstitucional. Roosevelt e seus asseclas da Suprema Corte interpretaram a Cláusula do Comércio de forma tão abrangente de modo a autorizar praticamente qualquer reivindicação federal, e a Décima Emenda de forma tão restrita de forma a privá-la de qualquer força para frear tais reivindicações. Hoje, essas heresias são tão firmemente arraigadas que o Congresso raramente ainda se pergunta se uma proposta de lei é autorizada ou proibida pela constituição.
O estado não possui legitimamente propriedades
Ainda que não haja nenhum consenso em torno da estrutura política em que vivemos, o imposto para sustentá-la ainda poderia ser justificado caso o estado fosse considerado uma espécie de condomínio. Esse seria o caso se, e somente se, ele possuísse posses legítimas, pois daí seu território configuraria propriedade e o indivíduo que não estiver satisfeito com o retorno do imposto e se rejeitar a pagá-lo teria apenas a opção de deixar o “país” — do contrário, o uso de força por parte dos agentes do estado estaria justificada. Essa geralmente é a visão das ditaduras e dos regimes nacionalistas totalitários, onde o chavão “ame seu país, ou deixe-o” é muito comum e aparece em diversas versões nas propagandas governistas.
Veremos contudo que esse não é o caso e que a história do surgimento dos estados e de suas evoluções territoriais está profundamente marcada por guerras e injustiças nas delimitações de seus títulos de “propriedade”.
Dado que estamos analisando a justiça dos atos do próprio estado, precisamos de uma teoria legal consistente e independente do mesmo. Mais especificamente, precisamos de uma norma universal e atemporal acerca da justiça de delimitação de títulos de propriedade que nos forneça um critério preciso e objetivo de quando determinada posse é justa, i.e., quando ela configura a propriedade, entendida aqui como o direito legal de controle exclusivo de um bem escasso.
Comecemos então do início, respondendo à mais básica das perguntas do Direito: para que precisamos de leis? A chave para resolvê-la reside no conceito de escassez, que é o caracteriza nossa realidade econômica na Terra. Com efeito, se considerarmos um mundo de completa abundância, onde todos os recursos teriam replicabilidade infinita, sem danos às cópias originais, então nenhuma lei de delimitação de propriedades seria necessária e tampouco a ideia de “roubo” faria sentido. É apenas em virtude da finitude dos recursos disponíveis para o homem agir que necessitamos de uma regra universal para especificar quem tem o direito de controlar o quê. Na própria ação humana, o conceito de escassez já está subentendido, pois ao agir, o homem está fazendo escolhas específicas de como usar seu próprio corpo (também um recurso escasso) e os bens que o circundam. E escolher, i.e., preferir um estado de coisas a outro, implica que nem tudo, nem todos os prazeres ou satisfações possíveis podem ser obtidos de uma só vez e ao mesmo tempo. Ocorre na verdade o exato oposto: a ação humana implica que algo considerado menos valioso tem de ser declinado de forma a que se possa ater-se a qualquer outra coisa considerada mais valiosa. Assim, escolher também implica sempre a avaliação de custos: adiar possíveis prazeres porque os meios necessários para consegui-los são escassos e são ligados a algum uso alternativo que promete retornos mais valiosos que as oportunidades preteridas.
Assim sendo, a escassez combinada com o convívio do homem em sociedade produz conflitos que dizem respeito ao controle de um mesmo bem (i.e., um mesmo meio) para atingir fins distintos. Enquanto mais de uma pessoa existir, as amplitudes de suas ações se interceptarem, e enquanto não existir nenhuma harmonia e sincronização de interesses pré-estabelecidos entre essas pessoas, os conflitos sobre o uso do próprio corpo delas e dos recursos escassos em geral serão inevitáveis. É para resolver tais conflitos que as leis se fazem necessárias.
Uma vez que uma regra universal acerca do uso e controle de recursos escassos tenha sido estabelecida, e todos passarem a segui-la, então naturalmente os conflitos cessarão, pois as distinções entre o que é meu e seu estarão definidas por via dessa regra. As próximas perguntas que se seguem, que são inevitáveis nesse ponto, são: existe uma tal regra? E se existe, ela é única? Ou será que existe uma infinidade delas, sendo nossa escolha essencialmente arbitrária? A resposta é que existe apenas uma e sua escolha é uma necessidade lógica, dados os propósitos da lei. Pode-se concluir isto usando a exigência da universalidade e analisando a importante distinção entre posse e propriedade. A intuição aqui é bastante simples, pois se uma pessoa invade minha casa e toma meu carro, ela terá a posse dele, mas a propriedade do carro continua sendo minha, desde que, é claro, eu não tenha tomado esse carro de ninguém. Passemos a ser mais precisos.
Queremos determinar a justiça sobre a posse de um determinado bem X. [9] Vamos também exigir que o bem X seja de fato escasso, pois do contrário a própria noção legal de posse passa a não fazer sentido, já que bens não escassos, como as ideias por exemplo, podem estar em posse de uma infinidade de pessoas sem danos ou alterações ao bem original. Assim sendo, o bem X só pode ser controlado simultaneamente por um número limitado de pessoas. Suponhamos que ele esteja sobre a posse de um grupo de pessoas, que denotaremos por A e que outro grupo, digamos, B, reivindique essa posse. Quem tem direito ao controle exclusivo de X? Uma hipótese já pode ser descartada de antemão, a saber, se B reivindica X apenas por declaração verbal sem nunca ter tido um elo objetivo com X, pois se pudéssemos ter propriedades apenas por decretos, então jamais iríamos resolver conflitos, mas sim perpetuá-los, sistematizando-os legalmente no convívio em sociedade. Uma norma de delimitação por decreto verbal não atende ao propósito último da lei que é o de eliminar os conflitos.
Suponhamos então que a reivindicação de B se dá argumentando que, ao contrário de um mero decreto, ele teve um elo objetivo com X, assim como A o tem. O que deve ser feito a fim de determinar a propriedade de X? Novamente, precisamos nos ater à questão dos conflitos e distinguir quem é que teve o primeiro uso do bem X. Uma norma que visa resolver conflitos não pode ser consistente com as éticas retardatárias, dando privilégios de uso a quem tomou posse dos bens depois do usuário original. Com efeito, qualquer regra que fizesse com os que vieram depois, ou seja, aqueles que de fato não fizeram algo com os bens escassos, tivessem tanto ou mais direito quanto os que chegaram por primeiro, isto é, aqueles que fizeram algo com os bens escassos, então literalmente ninguém teria a permissão de fazer nada com nada, já que teriam de esperar pelo consentimento de todos os que ainda estivessem por vir antes de fazer o que quisessem. Se B fez uso posterior a A do bem X, sem o consentimento de A, então ele não pode ser proprietário de X, uma vez que uma tal regra, se universalizada, impossibilitaria o uso de X, também instaurando o conflito em sociedade. Em outras palavras, B, neste caso, seria classificado como um ladrão.
Resta-nos a última possibilidade de B ter feito o uso de X antes de A. Se assim for, então os papéis se invertem e A passa a ser um possuidor ilegítimo de X. Isto contudo não é suficiente para declararmos que B tem uma justa reivindicação a X, mas apenas que a reivindicação de B é mais justa que A. Pode ocorrer que outro indivíduo, ou grupo de pessoas, digamos, C, reivindique o bem X de B, mostrando, assim como B fez com A, que teve um elo objetivo mais antigo que o de B. Neste caso, C teria uma reivindicação melhor, mas que por si só não garante uma posse justa, pois com efeito, pode ainda surgir outro grupo D comprovando uma apropriação anterior a de C, e assim por diante. Obviamente, esse raciocínio para em um, e apenas um, dos dois seguintes momentos: 1) quando ninguém mais além do possuidor reivindica o bem X; ou 2) quando o bem X foi apropriado originalmente, i.e., retirado de seu estado natural. Em ambos os casos obtemos uma situação isenta de conflitos. E considerando, por abuso de linguagem, um bem abandonado, cujos possuidores anteriores não mais reivindicam sua propriedade, como um bem em “estado natural”, podemos — sem perda de generalidade para fins legais — unificar as análises dos casos 1) e 2) em uma só. Assim sendo, vemos da discussão acima que a posse de um bem escasso X só pode ocorrer isenta de conflitos se ela remonta a uma apropriação original, ou seja, no caso em que ela foi obtida por trocas contratuais voluntárias que formam uma cadeia que tem início em um possessor que retirou o bem o X de seu estado natural para o uso. E dado que a lei visa resolver conflitos, esta é a única posse do bem X legalmente justificável.
Obtemos então a famosa lei da apropriação natural, ou homesteading, que pode ser enunciada afirmando-se que todo homem tem o direito à posse exclusiva de qualquer bem escasso que ele remova do estado que a natureza tem proporcionado e deixado, fazendo para isso uso intencional de seu trabalho. Em poucas palavras, o homesteading diz que a primeira posse determinada a propriedade, i.e., o direito de excluir a posse terceiros ao bem apropriado. Nas palavras do filósofo libertário Hans-Hermann Hoppe:
“Para evitar conflitos desde o início, é necessário que a propriedade privada seja fundada a partir de atos de apropriação original. A propriedade deve ser estabelecida por meio de atos (em vez de meras palavras, decretos ou declarações), porque somente através da ação, que ocorre no tempo e espaço, um elo objetivo (verificável intersubjetivamente) pode ser estabelecido entre uma pessoa específica e uma coisa específica. E somente o primeiro apropriador de uma coisa anteriormente não-apropriada pode adquirir essa coisa e sua propriedade sem conflito, dado que, por definição, como primeiro apropriador, ele não pode ter incorrido em conflito com alguém ao se apropriar do bem em questão, uma vez que todos os outros apareceram em cena apenas posteriormente.”
Estamos agora em posição de determinar a justiça (ou a ausência dela) das posses estatais. São elas legitímas? A resposta é um claro e sonoro “não” e já foi analisada por diversos antropólogos e sociólogos. Exemplos de origens violentas de estados abundam na história antiga. O antropólogo alemão Franz Oppenheimer resumiu o que chamamos de origem exógena do estado pela típica história de um clã de famílias que, pressionado pela escassez de bens e pela queda no padrão de vida, resultante da superpopulação absoluta, resolveu por uma opção pacífica: não guerrear com outras tribos vizinhas e passar a produzir controlando a terra. E graças ao processo de produzir bens – ao invés de simplesmente consumi-los – eles passaram a poupar e estocar bens para o consumo posterior. Contudo, sendo que a natureza do homem é como ela é, outras tribos bárbaras passaram a cobiçar os bens acumulados desse clã e iniciou-se aí uma temporada de ataques violentos: mortes, sequestros e grandes assaltos. O clã voltou à condição inicial de pobreza e com menos capital humano demorou a se restabelecer para conseguir produzir excedentes novamente. Os bárbaros saqueadores se deram conta de que seus roubos seriam mais longos, seguros e confortáveis se eles permitissem que o clã continuasse produzindo mas com a condição de que agora os conquistadores se tornariam governantes, exigindo um tributo periódico sobre o uso dos bens de capital e monopolizando a terra para o controle de migrações. E é por esse processo de conquista e dominação que Oppenheimer definiu seu conceito sociológico de estado:
“O que é, então, o estado como conceito sociológico? O estado, na sua verdadeira gênese, é uma instituição social forçada por um grupo de homens vitoriosos sobre um grupo vencido, com o propósito singular de domínio do grupo vencido pelo grupo de homens que os venceram, assegurando-se contra a revolta interna e de ataques externos. Teleologicamente, este domínio não possuía qualquer outro propósito senão o da exploração econômica dos vencidos pelos vencedores.” [10]
Alguns exemplos bastante ilustrativos disso foram dados pelos arqueólogos Charles Stanish e Abigail Levine da universidade de Chicago. Em artigo publicado em 2011 pela Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), os autores descreveram processos de dominação sucessivas de algumas aldeias que precederam o Império Inca na América do Sul. Os primeiros sinais de guerra remontam a pelo menos a 500 a.C. e, com o aumento populacional, os conflitos foram se intensificando. Já no primeiro ano d.C. a aldeia de Taraco foi invadida, provavelmente por forças de Pukara, outro centro regional da área. Pukara, por sua vez, teve seu status como estado primitivo até cerca de 500 d.C., quando foi absorvido pela Tiwanaku, o estado principal do outro lado da bacia do Lago Titicaca.
Um processo muito similar de um estado inicial surgindo de decorrentes chiefdoms beligerantes foi identificado no vale de Oaxaca do México por um estudo de Kent V. Flannery e Joyce Marcus, dois arqueólogos da Universidade de Michigan, também publicado no PNAS. Por 4.500 anos atrás, havia cerca de 80 aldeias do vale. Com o aumento populacional, um período de guerra intensa se instaurou a partir de 2.450 a 2.000 anos atrás, que culminou com a vitória de uma cidade sobre todas as demais no vale e finalmente com a formação do estado Zapotec.
Dr. Stanish acredita que a guerra era a parteira dos primeiros estados que surgiram em muitas regiões do mundo, incluindo a Mesopotâmia e a China, bem como as Américas. Os primeiros estados, em sua opinião, não foram impulsionados por forças além do controle humano, como clima e geografia, como alguns historiadores têm suposto. Em vez disso, eles foram moldados pela escolha humana como pessoas procuraram novas formas de dominação e novas instituições para as sociedades mais complexas que estavam se desenvolvendo. O comércio era uma dessas instituições de cooperação para a consolidação de grupos mais organizados. Depois veio a guerra que serviu como força de conquista para a formação de grupos maiores, que vieram a ser os protoestados.
Apesar de ser o caso mais frequente, nem só de guerra os estados adquiriram a forma que têm hoje. Com o crescimento de seus territórios, novas formas mais complexas de anexação de territórios foram surgindo. Ao longo da história moderna, abundam exemplos de pactos feitos pelos estados europeus para aquisição de territórios por decreto verbal. Um famoso exemplo é o Tratado de Tordesilhas assinado entre Portugal e Espanha para declarar divisão de posse de terras ainda não exploradas ao longo da América Sul e assim resolver os conflitos de terras após a descoberta do Novo Mundo por Cristóvão Colombo. Mais precisamente, o Tratado estabelecia a divisão das áreas de influência dos países ibéricos, cabendo a Portugal as terras “descobertas e por descobrir” situadas antes da linha imaginária que demarcava 1.770 km a oeste das ilhas de Cabo Verde, e à Espanha as terras que ficassem além dessa linha. Outro exemplo de conquista territorial por decreto é o Tratado da Antártida, um documento assinado em 1 de dezembro de 1959 pelos países que reclamavam a posse de partes continentais da Antártida. Embora sem definir partes da Antártida como território dos países signatários, mas sim como “patrimônio de toda a Humanidade” — um termo que nada significa —, o fato é que o continente foi repartido para posses — ainda que parciais e temporárias [11] — desses países perante uma clara ausência de elo objetivo. Exemplos recentes no Oriente Médio, por exemplo, Israel, também ilustram aquisição territorial por parte de decretos.
No geral, a história territorial dos estados está majoritariamente marcada por aquisições fora da lei. Isto já basta para decretarmos os territórios que eles reivindicam como ilegítimos e os próprios estados como foras da lei. De fato, a apropriação por decreto tem o efeito de privar os indivíduos de se apropriar de terras virgens, o que obviamente configura um crime, visto que a apropriação original é um direito natural. Quem tem o costume de viajar por vias rodoviárias entre cidades ou até estados já deve ter notado a enorme quantidade de terra não trabalhada e não ocupada que está na posse de governos, conhecidas por terras devolutas.
No Brasil há também o famoso exemplo da Amazônia, uma valiosa terra de ninguém que o governo brasileiro reivindica para si de forma completamente arbitrária. Já a apropriação por conquista militar é um roubo, um assalto a mão armada em escala geográfica, sendo obviamente também uma ilegitimidade.
O fato é que a imensa maioria do território sob controle dos estados foi na verdade apropriado originalmente pelos seus súditos, que hoje, além de terem apenas um controle parcial da propriedade sobre seus nomes, ainda estão sob constante ameaça armada do estado para darem a ele significativas parcelas dos frutos de seus rendimentos (imposto). E ainda que asseclas do estado tenham também se apropriado por trabalho de terras a mando dos governantes, isso não dá ao estado a propriedade delas pois, como visto acima, o estado está em débito jurídico com seus súditos. Ao contrário do que ocorre hoje, é o estado quem deve ter o uso de suas posses conquistadas legitimamente restringido e aos seus súditos deve ser dado o pleno direito de usufruto de todas propriedades sob seus nomes, até que alguém mostre juridicamente que elas não são legítimas. Vale sempre a máxima do Direito que diz que o ônus da prova é sempre de quem afirma. Em outras palavras, todos os cidadãos pacíficos devem ter o direito inalienável à auto-determinação e portanto à secessão individual, desvinculando todas suas propriedades dos monopólios jurídicos estatais. Em particular, ninguém deve ser obrigado a pagar qualquer tipo de taxa não contratual ao estado e imposto é roubo.
Notas
[1] Visto que originalmente, a constituição americana não concedia ao governo federal o poder de cobrar imposto de renda, ainda hoje há um amplo debate nos EUA sobre a legitimidade da coleta do Imposto de Renda. Foi apenas com a 16ª emenda que esse poder foi concedido ao estado americano, mas tal emenda nunca foi adequadamente ratificada. Segundo o economista Peter Schiff, filho de Irwin, no seu artigo em protesto pela morte de seu pai encarcerado:
“meu pai sempre foi mais conhecido por sua inflexível oposição à legalidade do Imposto de Renda, postura essa que levou o governo federal a rotulá-lo como um “manifestante tributário”. Meu pai não era anarquista e, sendo assim, admitia uma tributação moderada e objetiva. Ele acreditava que o governo tinha uma função importante, porém limitada, em uma economia de mercado. Ele, no entanto, se opunha à ilegal e inconstitucional imposição de um confisco da renda pelo governo federal, no forma do Imposto de Renda.”
Por sua cruzada anti-imposto de renda, Irwin Schiff faleceu na condição de prisioneiro político americano no dia 16 de outubro de 2015, aos 87 anos de idade, cego e algemado a uma cama de hospital dentro de um quarto de UTI vigiado por agentes armados do estado.
[2] Para mais detalhes sobre isso, veja meu artigo “Da Natureza do Estado à Cooperação Pacífica Por Segurança e Ordem”. Lá são fornecidos exemplos de arranjos privados de ordem e justiça na história, além de uma análise econômica de sistemas de produção privada de segurança.
[3] Para argumentos no sentido oposto, ou seja, da possibilidade de uma sociedade sem estado poder prosperar e se defender do surgimento de máfias governantes, veja esse texto de Robert Murphy.
[4] Na parte I do livro III da sua obra Tratado da Natureza Humana, Hume escreveu:
“Em todo sistema de moral que até hoje encontrei, sempre notei que o autor segue durante algum tempo o modo comum de raciocinar, estabelecendo a existência de Deus, ou fazendo observações a respeito dos assuntos humanos, quando, de repente, surpreendo-me ao ver que, em vez das cópulas proposicionais usuais, como é e não é, não encontro uma só proposição que não esteja conectada a outra por um deve ou não deve. Essa mudança é imperceptível, porém da maior importância. Pois como esse deve ou não deve expressa uma nova relação ou afirmação, esta precisaria ser notada e explicada; ao mesmo tempo, seria preciso que se desse uma razão para algo que parece totalmente inconcebível, ou seja, como essa nova relação pode ser deduzida de outras inteiramente diferentes.”
HUME, David. Tratado da Natureza Humana. Tradução de Débora Danowiski. Livro III, Parte I, Seção II. São Paulo, Editora UNESP, 2000, p. 509
[5] Há contudo algumas diferenças importantes na teoria de ambos do estado de natureza. Nesse sentido, Locke se opõe a Hobbes e Filmer, que julgavam que o estado de natureza é a-social e pré-moral, pois nele os homens não estariam submetidos a lei alguma. Para Locke, não apenas a sociabilidade é natural aos homens (não há, segundo ele, existência humana que não seja social) mas também existe uma lei que limita as ações no estado de natureza e cada indivíduo exerce um poder de julgá-la e executá-la com respeito aos demais.
[6] LOCKE, John. 1993a [1690]. Two Treatises of Government. Ed. Peter Laslett. Cambridge: Cambridge Univ. Press. Trad. de Júlio Fisher: Dois Tratados sobre o Governo. São Paulo: Martins Fontes, 1998. xiii.149; trad. modificada.
[7] Note contudo a flagrante contradição lógica nisto: um monopólio forçado da segurança e da justiça jamais poderá garantir a propriedade privada, pois, barrando a entrada de concorrentes, ele vai arbitrar unilateralmente e sem restrições o preço de seus serviços que terão que ser obrigatoriamente pagos. Isso significa que ele, por definição mesmo, já inicia todo o processo roubando os cidadãos. Assim, um protetor monopolista é sempre um expropriador, uma contradição em termos. Nas palavras de Walter Block, em “National Defense and the Theory of Externalities, Public Goods, and Clubs”:
“Argumentar que um governo cobrador de impostos pode legitimamente proteger seus cidadãos contra agressão é cair em contradição, uma vez que tal entidade inicia todo o processo fazendo exatamente o oposto de proteger aqueles sob seu controle.”
[8] No artigo “Por que devemos rejeitar a política” eu discuto o fracasso e a imoralidade da política partidária e dos meios políticos em geral.
[9] Para uma outra abordagem para a justificação do homesteading, utilizando o conceito de Ética da Argumentação, veja o meu artigo “A ética argumentativa hoppeana”.
[10] Franz Oppenheimer, The State (New York: Vanguard Press, 1926) p. 15.
[11] As posses previstas no Tratado Antártico se limitam a fins pacíficos, com ênfase na atividade científica, sendo vedada a realização de explosões nucleares e o depósito de resíduos radioativos. O Tratado determinou que até 1991 a Antártida não pertenceria a nenhum país em especial, embora todos tivessem o direito de instalar ali bases de estudos científicos. Na reunião internacional de 1991 os países signatários do Tratado resolveram prorrogá-lo até 2041.
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2015.09.28 11:50 veribaka [Blog] Análise ao FC Porto vs Benfica (Eu visto de vermelho e branco)

O Benfica deslocou-se ontem ao Estádio do Dragão para defrontar o FC Porto na 5ª jornada da Liga NOS. Para este jogo, Rui Vitória fez apenas uma alteração relativamente à equipa titular no último jogo. Entrou André Almeida para o lugar de Talisca, fazendo assim companhia a Samaris no meio-campo.
Os primeiros minutos de jogo foram calmos, com as equipas a estudarem-se. Porto a ter mais bola, o Benfica a aguardar um pouco mais. Apesar disso, dava para ver que o Benfica ia jogar com a defesa subida e a manter a identidade dos últimos jogos. Samaris e André Almeida estavam na frente da defesa para ocupar os espaços. Aos 8 e 11 minutos, o Benfica quase marca, depois de dois cantos. Em ambos os lances, Casillas defendeu os cabeceamentos de Mitroglou.
Se o que se esperava - eu incluído - era um Benfica com as linhas muitos baixas, a não tentar sair a jogar e a ter pouca posse de bola, o que se passou a verificar foi precisamente o contrário. A defesa estava alta no terreno, a tentar colar ao meio-campo e a equipa procurava sair a jogar. O Porto tinha alguma bola, mas bem longe da área de Júlio César e sem nunca conseguir ter bola entre as linhas do Benfica, tendo que rodar a bola para as alas. 20 minutos de jogo e o Benfica jogava tranquilamente no meio-campo adversário e saía a jogar, dominando a posse de bola e o jogo.
Perto dos 26 minutos, o Benfica volta a criar perigo. Boa jogada de Gonçalo Guedes na direita e depois Mitroglou chega atrasado ao cruzamento. Continuava uma equipa muito adulta no Dragão. A defesa na linha do meio-campo a trocar a bola, os médios a virem pedir bola e o Porto muito longe de incomodar. Não me lembro de ver isto alguma vez na minha vida. O problema era que o Benfica mesmo assim não criava grande perigo. A posse era mais de contenção e pouco vertical, não chegando para criar grandes desequilíbrios na defesa do Porto.
Perto dos 34 minutos, confusão entre Gaitán, Jonas e Maxi Pereira. Este lance veio mudar um pouco o que seria o jogo até ao intervalo. O Benfica perdeu um pouco do controlo do jogo depois disso. A equipa sentiu aquele momento, ficou um pouco mais nervosa e o Porto ganhou um pouco de ascendente, tendo mais bola. Não criou grande perigo, apenas um lance que foi invalidado por fora de jogo. O jogo chegou mesmo ao intervalo com 0-0 no marcador.
Sinceramente, não me lembro de uma parte tão tranquila num jogo com o Porto fora de casa. Também não me lembro de ver o Porto estar durante 45 minutos sem criar grande perigo num jogo em casa contra o Benfica. A equipa de Rui Vitória esteve bem, a controlar o jogo, o ritmo e a posse de bola. Equipa subida no terreno, tentativa de ter os sectores juntos e grande coesão defensiva. Claro que jogar no meio-campo com 2 médios mais de contenção, tornou a equipa mais coesa defensivamente, mas com menos gente para atacar. Mesmo assim, a equipa até se desdobrou bem para o ataque, mas tomou várias más decisões no último passe e ia sempre com pouca gente. Estivemos três vezes perto do golo. Duas vezes através de canto, e outra depois de cruzamento de Guedes. Apesar de tudo, os movimentos da saída jogar precisam de ser melhorados e juntar mais as linhas.
A defesa foi exemplar, tirando uma falha de Eliseu perto do intervalo. Centrais a fazerem um jogo perfeito. Muitos fortes a cortar todas as bolas que ali apareceram, a controlarem bem a profundidade e a tentarem colar ao meio-campo para juntar as linhas. Nélson Semedo fez uma grande 1ª parte, a secar completamente Brahimi. Eliseu a não comprometer, tirando a desatenção perto do intervalo.
Os dois médios de contenção estiveram bem. Foram matando muitas jogadas, quer com cortes ou faltas cirúrgicas e no capítulo do passe não estiveram mal. Claro que pouco deram ofensivamente à equipa, mas isso já era esperado. Guedes foi mais um médio de equilíbrio do que desequilibrador, ajudando muito em tarefas defensivas e só depois saía para o ataque. Gaitán começou bem, mas o duelo com Maxi afectou-o bastante e foi decaindo com os minutos. Jonas não esteve tão bem, teve algumas más decisões de passe. Mitroglou deu muito trabalho aos centrais e quase marcou por 3 vezes. Raramente perdeu a frente de um lance, dando sempre apoios ao portador da bola, mas claro, sente falta de mais bola na área.
Esperava-se que Corona fosse jogar na direita, mas começou no meio, jogando muito perto de Aboubakar. Era André André que se colocava mais do lado direito do ataque do Porto.
Benfica quase marca em dois cantos. Claro que quando o treinador do Porto coloca Rúben Neves a marcar individualmente Mitroglou, sujeita-se a isto. Mitroglou muito bem e grande elevação de Luisão no 2º lance.
Desde cedo se percebeu que Samaris e André Almeida pouco participariam no ataque.
Benfica muito adulto e a sair a jogar com tranquilidade.
O Porto colocava muitos jogadores a defender em lances como este. Lançamento do Benfica e podemos ver os 11 jogadores adversários perto da sua área.
A equipa de Rui Vitória conseguia fazer isto com tranquilidade no meio-campo do Porto. Mitroglou a dar apoio frontal, a entregar a bola ao médio e depois a bola era rodada para o lado contrário, onde estava o lateral a dar largura, já que Gaitán estava metido no interior do campo.
Equipa subida e a recuperar a bola assim que a perdia.
Ambas as equipas a ocuparem um curto espaço de terreno no pontapé de Casillas.
O Porto não conseguia entrar no meio-campo do Benfica sem ser pelas alas. Aqui podemos ver uma tentativa de jogar com o avançado. Jardel sai logo a Aboubakar e Samaris compensa logo a posição do central. Jonas e André Almeida fazem logo pressão, fechando os espaços e roubando a bola.
A única vez que o Benfica conseguiu criar perigo chegando com posse de bola junto à baliza adversária. Pena que Mitroglou tenha chegado atrasado.
Bom desarme de Jardel que entrega logo em Samaris, que por sua vez dá em Gaitán. Mitroglou vem dar o apoio frontal e com um toque soberbo desequilibra completamente a equipa adversária. Situação de 4 para 3 mas Jonas faz um mau passe para Gonçalo Guedes.
Aos 30 minutos de jogo, André André já tinha deixado o lado direito e já se posicionava ao centro do terreno.
Vamos jogar a quem tem os sectores mais longe uns dos outros.
Assim que a bola entrava no meio e o jogador recebia de costas, o Benfica pressionava logo, roubando muitas bolas.
O trabalho de Guedes a ajudar Nélson Semedo, tentando fazer sempre o dois contra um e fechar o interior.
O Porto tinha poucas soluções no meio-campo ofensivo. Na altura do remate, não há nenhuma boa linha de passe perto, para a bola circular, com a equipa do Benfica a fechar muito bem os espaços.
Para a 2ª parte, Rui Vitória não mexeu na equipa e entrou o mesmo 11 titular. O Porto entrou muito bem e Aboubakar aos 47 minutos envia a bola ao poste. Aos 49 minutos, André Almeida leva amarelo e este foi um momento importante do jogo. A equipa da casa entrou muito mais agressiva para a 2ª parte, dominava o jogo e aos 59 minutos quase marca por Aboubakar, depois de um grande passe de André André. O Benfica não existia em termos ofensivos.
O Porto dominava agora e era a melhor equipa em campo. O Benfica já não tapava tão bem os espaços e a equipa não conseguia chegar à frente. A posse de bola era diminuta, já que rapidamente era perdida e nem se conseguia sair a jogar. Já se deixavam os adversários ter posse entre linhas. Aos 71 minutos, o Benfica volta a chegar à baliza de Casillas, mas o cruzamento de Gonçalo Guedes é desviado para as mãos de Casillas. Pouco tempo depois, Mitroglou com uma grande cabeçada atira por cima da baliza do Porto.
Primeira substituição no Benfica aos 77 minutos. Sai Jonas e entra Talisca. O Porto a cada minuto que passava estava mais pressionante e intenso. A equipa do Benfica já mostrava um grande desgaste físico e os espaços apareciam em grande número. Rui Vitória volta a mexer na equipa aos 82 minutos. Sai Gonçalo Guedes e entra Pizzi.
Aos 86 minutos, o Porto adianta-se no marcador. Espaço entre linhas do Benfica e André André marca. Logo a seguir ao golo, entra Jiménez e sai Samaris. Nada de mais importante aconteceu até ao fim do jogo e o Porto acabou por ganhar por 1-0.
Esta 2ª parte foi o contrário da 1ª. O Benfica que veio dos balneários foi completamente diferente daquele que se tinha visto nos primeiros 45 minutos. Aquela equipa de posse, de muita segurança, da tentativa de ter as linhas juntas, de agressividade na recuperação de bola, não apareceu. Mérito também para o Porto, que subiu muito o seu nível depois do intervalo. Foram muito mais intensos, ganhando todas as segundas bolas. Já não se taparam bem os espaços entre a defesa e o meio-campo e André André jogou como quis.
A defesa esteve pior, os espaços começaram a aparecer em grande escala. No lance em que Aboubakar se isola, Jardel mal a perder a frente do lance enquanto tentava controlar a profundidade. Eliseu foi o costume, não é lateral para o Benfica. Nélson Semedo continuou muito bem, apesar de para o fim já ter dificuldades em segurar Brahimi. André Almeida a partir do momento que levou o cartão, baixou muito a agressividade defensiva e o cansaço também começo a aparecer. Notava-se nele e em Samaris, que também já pouco mais dava, e apareciam os espaços nas costas deles, cada vez que subiam um pouco mais.
Gaitán esteve mal, assim como na 1ª parte, e Guedes já não tinha a frescura depois de tantos sobe e desce para apoiar Nélson Semedo no duelo com Brahimi. Jonas esteve também abaixo do normal, sendo mais importante a fechar o espaço nas saídas a jogar do Porto que propriamente a atacar. Mitroglou ainda se ressentiu mais da falta de bola na área. Rui Vitória mexeu tarde na equipa, estava mesmo a ver-se o que ia acontecer, com André André a ter tanto espaço para jogar.
Bastou um minuto da 2ª parte para perceber que algo ia mudar.
Benfica entrou mal e Aboubakar falha incrivelmente o golo nesta situação. André André já com espaço para jogar neste lance.
Sou uma pessoa que detesta falar em árbitros e justificar qualquer resultado com a arbitragem - tirando alguns escândalos. No entanto, quero falar deste lance. Vejamos a colocação de Artur Soares Dias, completamente de frente e sem ninguém a tapar a visão. O que ele vê, é o que está na 1ª repetição. É o campo de visão dele, logo é impossível não ter visto a falta. Foi muito inteligente, sabendo que se fosse marcar falta depois daquela entrada, tinha de dar amarelo, neste caso o 2º. Então preferiu não marcar nada e deixar seguir, dando a ideia que não viu a falta.
André André consegue sair a jogar, defesa apanhada desprevenida e Jardel ultrapassado por Aboubakar enquanto tenta controlar o espaço nas costas.
Se na 1ª parte o Porto apenas pressionava a saída a jogar do Benfica com Aboubakar, na 2ª André André também o fez, criando mais dificuldades ao Benfica.
Péssima decisão de Eliseu. Jonas completamente sozinho na entrada da área, ou para chutar ou fazer andar a bola, e ele nem levanta a cabeça, preferindo fazer aquele remate com o pé direito.
Isto foi uma coisa que nunca aconteceu na 1ª parte. O Benfica a deixar chegar a bola entre linhas no centro do terreno, nas saídas a jogar do adversário.
Grande corte de Nélson Semedo.
A chegada com bola fácil entre a linha de médios e defesas do Benfica.
Situação de 3 para 2 perto da baliza de Júlio César na altura do cruzamento, e ainda com um homem solto na entrada da área.
Mais espaço entre linhas.
Das poucas boas situações que o Benfica teve para apanhar o Porto desequilibrado na 2ª parte, mas Maicon fez um grande corte. Mitroglou teve oportunidade de fazer o passe mais cedo, apanhando Gaitán embalado e com a bola no pé. Repare-se nos dois médios defensivos do Benfica. Assim que Jardel sai para tentar cortar a bola, ambos tentam ocupar o lugar dele. Foi fartura neste lance, que deu fome pouco depois.
Lance do golo do Porto. Equipa estica na pressão e o central do Porto puxa a bola para a lateral, indicando que vai bater a bola. Talisca pressiona pouco e Samaris deveria ter basculado para cá, assim que o defesa deu a indicação que ia bater. Jardel sai ao avançado, tentando cortar a bola e fechar aquele espaço. Samaris deveria já estar a fazer o lugar de Jardel, como tinha sido feito até então, sempre que um central tinha saído. Por esta altura, temos um Eliseu completamente perdido no campo, uns 3 metros atrás de Varela e sem fechar o espaço interior, deixando caminho aberto para a baliza. Porto ganha o ressalto, Brahimi já está na frente de Nélson Semedo e situação de 4 para 3 com o espaço para a baliza aberto. Ninguém faz falta e André André marca o golo.
Rui Vitória montou bem a equipa para este jogo. Equipa muito bem posicionada, a tapar todos os espaços e a dominar o jogo com tranquilidade. Na 2ª parte tudo se desmoronou. Penso que o treinador do Benfica deveria ter tentado mexer com os dois homens da frente da defesa. Notou-se que a partir dos 70 minutos eles acabaram para o jogo, e Rui Vitória nada fez para mudar isso, estando André André a fazer o que queria naquele espaço. No banco não estava lá nenhum jogador para fazer aquela posição. Cristante é um mistério que ainda estou para descobrir o que se passa com ele para nunca ser opção. Falta a equipa conseguir chegar com mais soluções e linhas de passe na frente, pois só no jogo contra o Belenenses isso conseguiu ser feito. A posse de bola melhora e é grande, mas continua a faltar sempre algo. Se olharmos para os dois jogos fora de casa no campeonato e para a Supertaça, o Benfica ainda não conseguiu marcar um golo. Preocupante.
Continuo a bater na mesma tecla. Esta equipa com um defesa esquerdo de valia e um 8, seria totalmente diferente. Aquela posição no meio-campo é um cobertor daqueles curtos. Se te queres tapar de um lado, ficas completamente destapado do outro. Não se consegue arranjar um meio-termo. Ou se perde muito em termos ofensivos, ou se perde muito em termos defensivos. A culpa aqui não é de Rui Vitória, as lacunas eram evidentes para quase toda a gente, menos para aqueles que mais importavam. Haja coragem para se apostar em Renato Sanches, continuo a achar que é o melhor 8 que o Benfica pode ter.
A defesa esteve bem no geral, algumas falhas, mas não muitas. Até os espaços começarem a aparecer em grande número, conseguiram ir limpando tudo e acabar com quase todos os lances. Falharam em alguns lances na 2ª parte. Eliseu já se sabe, não é lateral para o Benfica. Falha em muitos momentos do jogo e no golo é impensável aquele posicionamento. Nélson Semedo foi o melhor jogador do Benfica, tendo pela frente o melhor jogador do Porto. Forte nos duelos de 1 para 1 e bem a fechar por dentro o seu lado. Era uma questão de tempo até provar a qualidade que lhe apontei antes da época começar.
Os dois jogadores do meio-campo até rebentarem fisicamente e André Almeida estar limitado pelo cartão, foram tapando os espaços. Claro que não se pode pedir a nenhum deles que leve a equipa para a frente, mas isso já se sabe. Guedes fez um enorme trabalho a ajudar Nelson Semedo no confronto com Brahimi. Gaitán esteve péssimo no jogo. Claramente não se conseguiu abstrair do duelo com Maxi e dos laços de amizade que há entre eles. Basta para isso ver o lance por volta dos 30 minutos. Jonas também esteve abaixo do esperado. Foi importante a tapar o terreno nas saídas do Porto a jogar, mas ofensivamente pouco deu. Mitroglou fez um bom jogo. Deu muitos apoios frontais, raramente perdendo a frente dos lances e esteve perto de marcar.
Apesar de nunca gostar de perder, todos sabemos que na teoria este jogo é o mais difícil do campeonato. Pelo histórico dos jogos no Dragão, sabe-se que o Porto leva muita vantagem, são muito fortes em casa. Esta derrota não é o maior problema. O problema foi a derrota contra o Arouca. Ontem o Benfica podia ter ido ao Dragão no 1º lugar do campeonato, com vantagem sobre o Porto, criando pressão sobre eles. Assim, hoje já estamos a 4 pontos, e a equipa agora vai começar a jogar sobre brasas, não podendo cometer deslizes. É pena, porque este Porto é mais fraco que o do ano passado, e continua a ter no comando um treinador muito limitado e que pouco consegue fazer daqueles jogadores. Eles alimentam-se destas vitórias e agora a moral vai estar em alta.
Acredito que eles irão perder alguns pontos esta época, mas infelizmente acho que o Benfica também os perderá.
Texto escrito por P1nheir8, editor do blog. O artigo completo tem imagens ilustrativas dos lances.
Artigo completo.
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